segunda-feira, setembro 18, 2006

Histórias do Ciclismo

Inserimos nesta rubrica textos relativos ao ciclismo que nos sejam enviados e cujo interesse aconselhe a sua publicação.
Abrimos com um texto de Baptista Bastos, retirado de “Cidade Diária” e que publicamos com a devida vénia.
O visado aqui é um ciclista bem conhecido que vai ser homenageado, pai e irmão de grandes ciclistas: o Alberto Carvalho, a quem envio um grande abraço.

Timóteo de Matos
Presidente da Assembleia Geral do ACC
Coordenador da Comissão Organizadora


" Fica sempre para outra vez

Alberto de Carvalho apareceu na Volta a Portugal em Bicicleta com uma face imberbe de criança assustada. Soletrava mal a letra da Imprensa diária, que transferira o magno acontecimento para a severidade das suas primeiras páginas – ignorava, simpaticamente, tudo o que gravitava no Mundo e só tinha olhos rápidos para o seu treinador, Pinto Valongo, o Sorridente, e para o mano mais velho, Joaquim de seu graça baptismal, que fora chefe-de-fila e, depois, ponta-de-lança do Ribeiro da Silva, vedeta do Académico.

A Volta, para o Alberto, como para muitas dezenas de ciclistas, era a fuga à enxada, à jorna mal paga de sol a sol – a conquista de uma liberdade com cama, mesa e roupa lavada.

Joaquim, veterano pelado e sabido, repuxava a atenção toda para o mais novo rebento familiar – não fosse a malta da estrada, mais arteira que peralvilha, apertar o miúdo com manhas e patranhas, ou artimanhas – que são as formas mais vulgares de se conseguir graus, vencer etapas, ganhar prémios na Volta a Portugal em Bicicleta.

Homem prudente e avisado por um sem-número de provas ciclistas, Joaquim era a sombra constante do Alberto. Quando este afrouxava a pedalada, logo o irmão mais velho aparecia com a palavra seca e precisa, a extrair dos músculos do outro novas reservas de energia. Quando Alberto, deslumbrado com os aplausos dos caminhos se preparava para fugas isoladas, logo o irmão aparecia, a recomendar prudência, a dar ao outro o que lhe faltava de tacto e de esclarecimento e lhe sobrava de juventude e de poder de arranque,

A fábula do cego e do coxo voltava a repetir-se. Joaquim já perdera a capacidade de se emocionar: via tudo objectivamente, como homem de grandes planos. Alberto era um gigante ainda sem freio e sem montada.

Uma tarde, quando a Volta, tranquila de exaustão, rolava pelo caminho da charneca alentejana, que terminava na meta de Portalegre, Joaquim disse ao Alberto:

- É agora! Foge! Vais sozinho, porque já não tenho pernas para te acompanhar.

Piscou o olho ao mano novo e deu-lhe o último recado:

- Olha por ti!

Ante a perplexidade do pelotão, Alberto arrancou – com a comoção dos grandes momentos. Pedalou, pedalou, pedalou horas a fio, sozinho na planície. Faltou-lhe a comida. Faltou-lhe a água. Faltou-lhe, sobretudo, a palavra precisa do irmão mais velho. E ninguém apareceu na planície a dar-lhe o púcaro de água ou a berrar-lhe a alegria de um reencontro. A pele dos músculos das penas estalou com o sol. Os lábios gretaram até ao sangue. Horas. Outras horas sobre outras horas. Foi quando, a dez quilómetros de Portalegre, vindo, sabe-se lá de onde, apareceu, no meio da estrada, um homem da terra com um pote de água.

- Atira! – gritou Alberto.

O homem hesitou, segundos apenas. Atirou a água, que se destinava a refrescar o campeão solitário. Errou o cálculo: nem uma gota caiu sobre o Alberto, que não afrouxara a marcha, para não falhar o seu primeiro triunfo.

O homem da terra, perante a inutilidade aparente do seu gesto, ficou triste, a ver o outro a afastar-se. Então, sempre montado na bicicleta, Alberto virou-se para trás e gritou:

- Fica para a outra vez, companheiro!"