segunda-feira, outubro 16, 2006

FIGURAS DA VOLTA - Manuel Castro

Manuel Castro - O Grande “Fogueteiro”

Tem um corpo meão, a perna curta, a face menineira, os dentes ralos, o cabelo curto de um colegial. Os anos passam por cima dele, mas o rapazola, com a sua cara ingénua, digna de seminarista caloiro, parece ter sempre a mesma idade. Estamos a recordar-nos das suas primeiras “diabruras” na Volta a Portugal, há uma boa meia dúzia de anos, e se alguma diferença notamos agora, em 1965, ela é capaz de ser … para pior.
Não há duvida, é um incorrigível gaiato o Manuel Castro, esse nervoso e meio estouvado ciclista do Académico que consegue ser hoje, na jovem e inexperiente equipa do “heróico” clube do Porto, um veterano.
Parecendo estar sempre a ser mordido por invisível mas activo e perseverante “bicho-carpinteiro”, o Castro não é capaz de manter-se quietinho um momento (…).
Desde que, lá dentro, haja um bocadinho só de força – às vezes, se calhar, apenas a suficiente para levar um sujeito a apagar um fósforo… - O rapaz do Académico gasta-a num esticão inopinado e fútil. É um esbanjamento inqualificável mas é assim.
(…) Bem se pode dizer que o Manuel Castro é o “fogueteiro honorário” da Volta a Portugal. Não há etapa em que ele não apareça, à frente de todos, a empreender uma fuga, mesmo aquela fuga disparatada e inconcebível que o pode levar ingloriamente à exaustão.
E, com toda a franqueza, esta faceta do temperamento do ciclista do Académico, “delinquente habitual” da maior prova do ciclismo português, já sem regeneração possível, está na base de uma simpatia muito especial que lhe dedicamos.
Francamente, entre o descuidado “pardal de telhado” do Manuel Castro, feliz no seu saltitar libertino e a manhosa “ave de rapina” que estuda, com todo o requinte e todo o sadismo, o momento de dar o salto sobre a presa indefesa, a nossa simpatia vai, inteirinha, para o “pardal de telhado”.
É mais do que possível – é certo! – que, com esta sua maneira de ser, o rapaz do Académico (ai o ciclismo é como a nossa vida de todos os dias!...), não vá longe. Não tem que ver, ele não passará de um “fogueteiro” da ”Volta” que ninguém leva a sério. Mas, se lá por cima se gosta do ciclismo, temos quase a certeza de que, daqui a muitos, muitos anos, o Manuel Castro andará a dar esticões sobre esticões de nuvem para nuvem, na grande Volta Celeste, com o S. Pedro em Director da Corrida.

N. da R.: O texto é do grande e saudoso Vítor Santos publicado em “A Bola” de 02/08/1965. Não sabemos o que é feito do Manuel Castro. O Grande Académico era uma das equipas de que muito gostávamos e vai ser um dos nossos homenageados.