segunda-feira, outubro 09, 2006

Histórias do ciclismo - Dr. Barreiros de Magalhães

Dr. BARREIROS DE MAGALHÃES
A Alma Boa das Voltas a Portugal
Image Hosted by ImageShack.us
Aconteceu, certa tarde fanhosa de aspecto, cinzenta no céu, que abalamos de casa de António da Malta (em Envendos) a caminho de Abrantes. Era a primeira “Volta” em que o bom Dr. Barreiros de Magalhães entrava neste místico circo em que se debatem os interesses mais confusos e diversos. Estava em prova uma representação espanhola, a regimentada pelas “Caves Messias” e constituída à base de rapazes que eram alunos de Federico Bahamontes no regimento do “Licor La Casera”: e a luta com Benfica e Sporting mano-a-mano.
…Corria-se o dia 24 de Agosto de 1952: a certa altura, parada à minha esquerda, estava uma carrinha espanhola. Cá fora, espreitando a corrida, a cara bem conhecida do “Águia de Toledo”, do rei da montanha no “Tour de France”, precisamente de Federico Bahamontes que vinha espreitar os seus jovens pupilos. Não estive com conversas longas, a audácia deve ser património dos loucos: convidei Bahamontes a entrar no meu carro e foi aí que ele, de Vila de Rei ao Jardim da Abrantina Praça da República, viu a prova. E, como ficou pasmado: um corredor, completamente pendurado no carro do médico, lá ia paulatinamente percorrendo as três dúzias de quilómetros que faltavam para o fim do sacrifício daquela etapa. Tantas me foi dizendo Bahamontes, tanto me meteu no ouvido que, mal cheguei a Abrantes desatei num berreiro tremendo, garantindo a quem me queria ouvir que o médico da “Volta” estava defraudando tremendamente a corrida, dado reboque ostensivo a um rapaz que mal se podia ter nas canelas e, se não estivesse grudado à viatura de Barreiros de Magalhães, tinha sido mais que eliminado.
No dia seguinte, no “Diário de Lisboa” lá vinha o título chicoteante: “ Médico defrauda verdade da corrida”. Barreiros de Magalhães era atirado para o Inferno, não ficava nem pontinha para entregar à família como recordação (…) mas, no dia seguinte, abalamos para as Penhas da Saúde (…) a um canto, na penumbra de uma família que o envolvia em abraços e beijos, estava o tal ciclista que devia a sobrevivência a Barreiros de Magalhães.
E foi só então que o bom anjo dos ciclistas, esse José Barreiros de Magalhães que tem hoje especial lugar no meu coração e que sempre ficará inscrito na boa e honesta história das “Voltas a Portugal” em bicicleta, me pegou pelo braço e contou.
“Não podia dizer isso antes, mas ele veio ter comigo e, de lágrimas caindo como uma catarata, pediu-me por tudo que o auxiliasse: era fundamental que terminasse a “Volta”, o patrão oferecia-lhe uma mobília de quarto se isso acontecesse ele já tinha casamento apalavrado para a terça-feira seguinte em Lisboa”. Nessa terça-feira não sei se o Barreiros de Magalhães foi o padrinho mas lá que o grande culpado de um matrimónio feliz foi esse homem modesto e simples que todos os anos vem do Porto ao encontro dos voltistas, não resta a mais pequena dúvida. Nunca consegui contar o epílogo da história a Federico Bahamontes, mas Deus é testemunha do acto de um homem bom.


Nota da Redacção: O texto foi publicado por Neves de Sousa no “DL” de 06/04/85 e citava o ciclista em causa cujo nome resolvemos omitir. Mas lá que o Doutor era um pai para os ciclistas, não há duvida. Perguntamos a Alves Barbosa se devia omitir o nome do ciclista, porque, enfim, sempre era aborrecido… “qual aborrecido, qual carapuça” respondeu-nos, “ele ajudava-os todos!...”